Cãomunicar: A Linguagem Do Corpo Canino

Dois cães devidamente socializados cruzam-se na rua, mas o silêncio permanece. Provavelmente tudo o que há para ouvir é o barulho dos seus indiscretos cheirares, mas nenhum ladra. Os cães despedem-se sabendo quem é o líder, qual o género do outro cão, a sua disposição, onde esteve, entre outras coisas de que nós humanos não fazemos ideia. Como é que o fazem? Expressões faciais, postura e movimentos, ou seja, comunicação não-verbal.

Os cães usam tudo o que mexe no seu corpo para comunicar – desde o focinho, até à cauda, mesmo a contracção dos músculos tem um significado. Apesar de os cães terem diferentes vocalizações para cada disposição, a principal forma de comunicação entre eles são as expressões, os gestos e as reacções. Os cães aprendem a comunicar uns com os outros, enquanto são bebés, através da interacção com a mãe e irmãos. O período crucial de socialização é entre as três e as oito semanas, quando os cachorros “absorvem a linguagem”. Muitos cães órfãos, criados com os humanos podem não chegar a dominar a comunicação não-verbal canina, o que pode levar a interpretações erradas na interacção entre os animais. Estes cães podem atacar sem aviso, por vezes podem mesmo não perceber os sinais de submissão do outro cão e continuam a luta. É por este motivo que a socialização é crucial.

As bocas do cão

A boca do cão é uma das formas mais importantes de comunicação no cão, uma vez que tanto serve para comunicar através de sons, como através de expressões. Os movimentos da boca do cão são semelhantes aos da dos humanos, mas são mais limitados. A boca dos cães tem um formato rígido e assume uma importância vital no seu quotidiano, uma vez que permite agarrar, rasgar e desfazer a comida, enquanto os humanos podem usar as mãos. A necessária força do maxilar e boca dos cães fez com que esta fosse menos versátil do que a boca delicada dos humanos. Para além disso, os lábios dos cães não assumem grande importância na ingestão de alimentos, daí que não se tenham desenvolvido tanto como em nós. Mesmo assim, a boca é uma parte fundamental na linguagem corporal deste animal, não só para expressar agressividade, mas também medo, através das subtis diferenças na exposição dos dentes. Mas, através da boca, podemos também perceber se o cão está relaxado, ou "feliz".

O sorriso do cão

Há alguns cães que por vezes aparentam estar a sorrir e algumas raças que são conhecidas por ter o feitio da boca que se assemelha a um sorriso, como é o caso do Chinese Crested Dog. Contudo, o sorriso humano pode ser comparado não ao mesmo formato na boca do cão, mas a uma expressão completamente diferente. Alguns peritos afirmam que os cães riem-se com a cauda, mas a verdade é que também podemos considerar que sorriem com a boca. Uma boca relaxada com a língua por cima dos dentes de baixo, por vezes pendente e para o lado, é provavelmente a expressão que mais simboliza o sorriso de um cão.

O beijo do cão

Ao contrário daquilo que se possa pensar, as lambidelas não são beijos caninos. Os humanos beijam-se para mostrar afeição, mas também como um gesto social indicativo de boas maneiras (saudar uma pessoa com um beijo na cara não indica que gosta dessa pessoas, pode mesmo ter acabado de a conhecer).

Os cães começam a ser lambidos desde o nascimento. Depois de a cadela dar à luz, ela lambe os filhos para os limpar. Lamber é também uma forma de estimular o sistema urinário. Durante os primeiros meses, os cães continuam a ser lambidos pela mãe para os “lavar”. Enquanto jovens, os cachorros lambem-se uns aos outros para transmitir a mensagem “Sou amigável, não sou uma ameaça para ti.” Ao mesmo tempo, os cachorros colocam ainda a questão: “E tu és uma ameaça para mim?”, procurando reconforto. Para além disso, no estado selvagem, os cães lambem o focinho da mãe, quando esta volta de uma caçada, para pedir comida.

Sobejamente conhecido é o comportamento dos cães lamberem tudo o que lhes passa à frente: cara, mãos, pés, joelhos, etc. Por isso, é preciso tentar perceber o significado das lambidelas do cão: pode estar a pedir comida, pode querer ser escovado, pode estar a tentar mostrar que é amigável,  pode querer ser aceite ou estar a mostrar submissão. Contudo, com o desenvolvimento do cão, este comportamento tende, cada vez mais, a ser dominante em vez de submisso.

Geralmente os cães lambem para pedir atenção aos donos. Uma vez que os humanos consideram este comportamento é uma forma de os cães mostrarem afecto, respondem precisamente da forma que o cão quer: dando atenção.

Em todos estes casos, as lambidelas dos cães não são motivos de preocupação para os humanos; mesmo que sejam mal interpretadas, os cães fazem valer as suas necessidades. Contudo, lamber compulsivamente está relacionado com o stress canino. Um cão em stress ou com medo adopta continuamente esse comportamento. Quando o cão não tem nada que lamber, pode inclusivamente começar a lamber-se a si próprio, as patas e outras partes do corpo. Um cão nestas condições deve ser tratado, por isso os donos devem verificar se as lambidelas são esporádicas ou se, pelo contrário, são frequentes.

O mito da cauda a abanar

Os abanões da cauda dos cães indicam excitação ou agitação. Um erro comum é confundir excitação com contentamento. Na realidade, um cão furioso também pode abanar a cauda. A melhor forma de descodificar a disposição do cão através da cauda é olhando para o nível a que se encontra, baixa, horizontal ou alta, a velocidade e a extensão das oscilações.

O cão pode abanar a causa quando esta se encontra em qualquer posição, exceptuando quando está entre as pernas. Quando a cauda está relaxada ou para baixo, abanar a cauda significa que o cão está contente, mas quando está erguida pode significar exactamente o contrário e ser um prenúncio de um ataque.

Oscilações lentas podem significar que o cão está apreensivo ou a tentar perceber o que se passa à sua volta. Por exemplo, o cão pode estar a tentar perceber qual o comando ou ordem que lhe está a dar. Este comportamento não é agressivo nem pacífico, é uma situação de impasse.

Estes gestos variam de acordo com a raça dos cães, uma vez que existem diversos tipos de caudas. Para uma apreciação mais precisa sobre a mensagem que o cão está a tentar transmitir é necessário observar todos os movimentos do corpo.

“Não estou com medo, estou simplesmente furioso!”

Para os donos mais desatentos, cães furiosos ou medrosos reagem da mesma maneira. Ambos rosnam, mostram os dentes e têm um ar ameaçador, contudo existem algumas diferenças que nos permitem distinguir os dois comportamentos. Um cão com medo permanece medroso, mesmo depois de a ameaça ter-se extinguido, ao contrário de um cão dominante que, após a eliminação da fonte de irritação, retorna à sua rotina normal. Um cão com medo é geralmente mais agressivo do que os cães dominantes, uma vez que o cão medroso teme pela sua vida, atacando até eliminar por completo a ameaça, enquanto o dominante ataca apenas o necessário para provar a sua superioridade.

Só é possível distinguir estes comportamentos se se prestar atenção aos pequenos detalhes da linguagem corporal do animal: a posição da cabeça, das orelhas, do corpo, da cauda, etc., varia ligeiramente. É importante saber se o cão é dominante ou se pelo contrário está com medo. Um cão pode tornar-se ameaçador quando alguém mexe nos seus brinquedos ou quando encontra outros cães. É importante saber reconhecer os sinais de desconforto que o cão transmite, para que uma acção pronta por parte do dono possa evitar acidentes.

Usar a cabeça

Diferentes posições de cabeça sinalizam diferentes disposições. Embora uma correcta avaliação da linguagem corporal do animal só posso ser feita a partir da observação do conjunto de todos os sinais, é possível extrair algumas conclusões a partir da posição da cabeça do cão. A posição normal, a meia haste, indica que o cão está relaxado ou contente, dependendo da postura do corpo. Quando o cão vira a cabeça para um dos lados, está a mostrar acatamento. Se a cabeça oscilar levemente de um lado para o outro significa que o cão está atento e alerta. A cabeça erguida associada a uma peito projectado indica desafio ou agressão.

Nos cães, a submissão pode ser transmitida através do abaixamento da cabeça, enquanto a dominância pode ser estabelecida através da colocação da cabeça do cão dominante sobre o dorso do cão submisso. O cão dominante pode em vez da cabeça tentar colocar a pata no dorso do outro cão, mantendo-se o significado. Um cão que anda de cabeça baixa, pode ainda estar deprimido ou em stress.

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Arca de Noé